CIBERFEMINISMO, CORPOS CODIFICADOS E FUTUROS POSSÍVEIS
“Não há inocência na
tecnologia. Toda interface carrega uma ideologia.”
— Donna Haraway, Manifesto Ciborgue (1985)
(Barbarella,
1968)
Na distopia silenciosa do
nosso tempo, vozes insurgentes se erguem em meio aos ruídos do algoritmo. Vozes
que não querem ser traduzidas, suavizadas, domesticadas. Vozes femininas,
negras, indígenas, periféricas, queer — que se recusam a ser silenciadas pelas
promessas fáceis da tecnociência e da estetização digital. Este texto é um
convite a escutar essas vozes.
Estamos cercadas por máquinas
que falam, criam, recomendam, vigiam. Das assistentes virtuais como Alexa e
Siri, às IAs generativas como o Google Veo ou Sora, que produzem vídeos
hiper-realistas a partir de comandos de texto, as imagens do mundo estão cada
vez mais sendo produzidas por sistemas que aprendem com dados enviesados. E a
quem servem essas imagens?
Na esteira desse cenário, o ciberfeminismo
emerge não apenas como crítica, mas como contra-programação — uma estética
política que recusa as lógicas normativas do código e reimagina futuros
habitáveis para os corpos dissidentes.
FICÇÃO CIENTÍFICA E A CONSTRUÇÃO DO FEMININO
TECNOLÓGICO
(Ex
Machina,2014)
Ao longo do século XX, o
cinema de ficção científica ofereceu metáforas potentes para pensar o corpo
feminino como máquina, simulacro, interface. Em Barbarella (Roger Vadim,
1968), temos a heroína hipersexualizada em um espaço interestelar dominado por
homens. Já em Mulher Biônica (1976), o corpo feminino é reconfigurado
pelo Estado para servir como ferramenta de vigilância e força.
(Her,
2013)
Décadas depois, novas
narrativas complexificam essa relação. Em Her (Spike Jonze, 2013), uma
IA feminina (Samantha) serve como objeto afetivo, enquanto em Ex Machina
(Alex Garland, 2014), a androide Ava questiona sua própria existência e se
rebela contra seu criador. Em Westworld (HBO, 2016–2022), androides
femininas — programadas para obedecer — despertam sua consciência e rompem com
o ciclo de violência.
Essas narrativas expõem a
tensão central: o corpo feminino como projeto de poder — seja pela carne, pelo
código ou pela imagem. O que elas anunciam, ainda que indiretamente, é o campo
fértil onde o ciberfeminismo se instala.
CIBERFEMINISMO: ENTRE O
CORPO E O CÓDIGO
O
termo “ciberfeminismo” foi cunhado nos anos 1990 por grupos como o coletivo
australiano VNS Matrix, que proclamava em seu manifesto:
“Ciberfeminismo não é
biológico.
Ciberfeminismo não é sobre meninas bonitas.
Ciberfeminismo não é sem corpo.”
Recusando definições fechadas,
o ciberfeminismo é uma prática de resistência e reprogramação que entende a
tecnologia como um campo político. Donna Haraway, no seminal Manifesto
Ciborgue (1985), já alertava que a figura do ciborgue não é apenas
metáfora, mas uma realidade híbrida que nos convida a romper com as dicotomias
homem/mulher, natureza/cultura, corpo/máquina.
O ciberfeminismo é,
então, o gesto de insurgência que transforma a tecnologia em território de
disputa. Ele faz do glitch uma linguagem, do bug uma forma de resistência, do
ruído uma estética.
FEMINISMO NEGRO E A
INSURGÊNCIA DIGITAL
A crítica feminista não pode
se dar sem interseccionalidade. Bell Hooks, Sueli Carneiro, Nilma Lino Gomes e Lélia
Gonzalez nos ensinam que gênero, raça e classe são dimensões entrelaçadas que
estruturam a exclusão. No campo digital, essas estruturas se reproduzem em
algoritmos que invisibilizam, classificam e excluem.
A ausência de corpos negros
nos dados que alimentam as IAs não é um detalhe técnico — é reflexo da
colonialidade do saber e do ser. Como afirma Sueli Carneiro, o racismo não é um
desvio, mas uma engrenagem. E no mundo digital, ele se manifesta nas interfaces
que não reconhecem rostos negros, nos filtros que clareiam peles, nos sistemas
de vigilância que criminalizam a cor.
Nilma
Lino Gomes reforça a importância da educação crítica como ferramenta de
emancipação. Aplicado ao ciberespaço, isso significa promover letramento
digital antirracista — uma pedagogia que forma sujeitos capazes de entender e
combater o racismo algorítmico.
Lélia
Gonzalez, ao nomear o racismo como “preconceito de marca e origem”,
antecipava o debate sobre como o racismo atua nas representações. No campo do
ciberfeminismo, sua voz ecoa como um alerta: não há revolução digital
possível sem a presença radical das mulheres negras.
ECOFEMINISMO, DADOS E TERRITÓRIO: A CRÍTICA DE
VANDANA SHIVA
O ciberfeminismo se fortalece
ao dialogar com o ecofeminismo, especialmente a partir das ideias da indiana Vandana
Shiva. Para ela, a mesma lógica que explora e destrói a natureza é a que oprime
corpos femininos — ambas tratadas como recursos, e não como sujeitos.
Shiva denuncia o projeto
tecnocrático da modernidade, que dissociou o conhecimento da vida, e
transformou a Terra e os corpos em zonas de extração. A era digital continua
esse projeto: se antes extraíamos minérios, agora extraímos dados. Likes,
padrões de consumo, localização, afetos — tudo é mercadoria.
O ciberfeminismo ecofeminista
propõe, então, uma crítica que liga o extrativismo de dados ao extrativismo
ambiental, e aponta para uma ética da reciprocidade, da pluralidade e do
cuidado.
BYUNG-CHUL HAN E A DOR DIGITAL SILENCIADA
Vivemos, como afirma Byung-Chul
Han, em uma “sociedade paliativa” — uma cultura que se recusa a lidar
com o sofrimento. A dor é vista como falha, a negatividade como ameaça, o
conflito como distúrbio. As redes sociais, com seus filtros e métricas,
alimentam essa lógica: tudo precisa ser leve, bonito, engajável.
No entanto, o ciberfeminismo é
a recusa dessa anestesia. Ele transforma a dor em linguagem, o trauma em
política, a cicatriz em narrativa coletiva. Ao invés de filtrar a realidade, o
ciberfeminismo expõe, denuncia, convoca.
As
campanhas #MeuPrimeiroAssédio, #MeuAmigoSecreto, #AgoraÉQueSãoElas,
e a Primavera Feminista de 2015 são exemplos dessa insurgência. Elas
mostraram que o espaço digital pode ser usado para construir solidariedade,
gerar reconhecimento, promover justiça.
O QUE O CIBERFEMINISMO
NOS ENSINA SOBRE O FUTURO
(Mulher
Biônica, 1976)
O futuro já não é uma
utopia distante — é um vídeo gerado por IA. É uma voz sintética que parece
humana. É um feed desenhado por algoritmos. E por isso, mais do que nunca,
precisamos imaginar futuros que não sejam programados pela lógica do
patriarcado, do racismo, do colonialismo e do capital.
O ciberfeminismo, ao
incorporar as vozes de Haraway, hooks, Gonzalez, Shiva, Carneiro, Han e tantas
outras, nos ensina que a tecnologia pode ser reprogramada — mas só se formos
muitas, plurais e insurgentes.
“Somos todas ciborgues.”
Mas quais memórias, linguagens e afetos essas ciborgues carregarão?
Isso, ainda podemos escolher.
Referências recomendadas
HARAWAY, Donna. Manifesto
Ciborgue.
VNS MATRIX. 100
Anti-Teses do Ciberfeminismo. Documenta X, 1997.
DUTRA, Zeila. A
Primavera das Mulheres: Ciberfeminismo e os movimentos feministas.
SHIVA, Vandana. Monoculturas
da Mente. Gaia, 2003.
HOOKS, Bell. O
Feminismo é para Todo Mundo. Rosa dos Tempos, 2000.
CARNEIRO, Sueli. Racismo,
Sexismo e Desigualdade no Brasil. Selo Negro, 2011.
GOMES, Nilma Lino. Educação
e Luta Antirracista. Autêntica, 2017.
GONZALEZ, Lélia. Por
um feminismo afro-latino-americano. Zahar, 2020.
HAN, Byung-Chul. Sociedade
Paliativa. Vozes, 2021.
HONNETH, Axel. Luta
por Reconhecimento. Ed. 34, 2003.
Filmes e séries: Barbarella
(1968), Mulher Biônica (1976), Her (2013), Ex Machina
(2014), Westworld (HBO), Ghost in the Shell (1995/2017), Matrix
(1999).
[1]
Graduada em Licenciatura
Plena em Pedagogia pela Universidade do Estado do Amapá (UEAP, 2024). Cursa
pós-graduação Lato Sensu em Educação para as Relações Étnico-Raciais (UEAP),
Informática. Aplicada à Educação (Instituto Federal do Amapá – IFAP) e Direitos
Humanos (Instituto Nove de Inovação e Ensino Superior – Instituto 19).



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