CIBERFEMINISMO, CORPOS CODIFICADOS E FUTUROS POSSÍVEIS

 


Juliana de Lima Melo[1]

“Não há inocência na tecnologia. Toda interface carrega uma ideologia.”
— Donna Haraway, Manifesto Ciborgue (1985)

Diagrama

O conteúdo gerado por IA pode estar incorreto.

(Barbarella, 1968)

                  Na distopia silenciosa do nosso tempo, vozes insurgentes se erguem em meio aos ruídos do algoritmo. Vozes que não querem ser traduzidas, suavizadas, domesticadas. Vozes femininas, negras, indígenas, periféricas, queer — que se recusam a ser silenciadas pelas promessas fáceis da tecnociência e da estetização digital. Este texto é um convite a escutar essas vozes.

                  Estamos cercadas por máquinas que falam, criam, recomendam, vigiam. Das assistentes virtuais como Alexa e Siri, às IAs generativas como o Google Veo ou Sora, que produzem vídeos hiper-realistas a partir de comandos de texto, as imagens do mundo estão cada vez mais sendo produzidas por sistemas que aprendem com dados enviesados. E a quem servem essas imagens?

                  Na esteira desse cenário, o ciberfeminismo emerge não apenas como crítica, mas como contra-programação — uma estética política que recusa as lógicas normativas do código e reimagina futuros habitáveis para os corpos dissidentes.

 FICÇÃO CIENTÍFICA E A CONSTRUÇÃO DO FEMININO TECNOLÓGICO

Uma imagem contendo pessoa, no interior, mulher, homem

O conteúdo gerado por IA pode estar incorreto.

(Ex Machina,2014)

                  Ao longo do século XX, o cinema de ficção científica ofereceu metáforas potentes para pensar o corpo feminino como máquina, simulacro, interface. Em Barbarella (Roger Vadim, 1968), temos a heroína hipersexualizada em um espaço interestelar dominado por homens. Já em Mulher Biônica (1976), o corpo feminino é reconfigurado pelo Estado para servir como ferramenta de vigilância e força.

 

                  Homem em frente a mesa com computador

O conteúdo gerado por IA pode estar incorreto.

(Her, 2013)

                  Décadas depois, novas narrativas complexificam essa relação. Em Her (Spike Jonze, 2013), uma IA feminina (Samantha) serve como objeto afetivo, enquanto em Ex Machina (Alex Garland, 2014), a androide Ava questiona sua própria existência e se rebela contra seu criador. Em Westworld (HBO, 2016–2022), androides femininas — programadas para obedecer — despertam sua consciência e rompem com o ciclo de violência.

                  Essas narrativas expõem a tensão central: o corpo feminino como projeto de poder — seja pela carne, pelo código ou pela imagem. O que elas anunciam, ainda que indiretamente, é o campo fértil onde o ciberfeminismo se instala.

CIBERFEMINISMO: ENTRE O CORPO E O CÓDIGO

O termo “ciberfeminismo” foi cunhado nos anos 1990 por grupos como o coletivo australiano VNS Matrix, que proclamava em seu manifesto:

“Ciberfeminismo não é biológico.
Ciberfeminismo não é sobre meninas bonitas.
Ciberfeminismo não é sem corpo.”

                  Recusando definições fechadas, o ciberfeminismo é uma prática de resistência e reprogramação que entende a tecnologia como um campo político. Donna Haraway, no seminal Manifesto Ciborgue (1985), já alertava que a figura do ciborgue não é apenas metáfora, mas uma realidade híbrida que nos convida a romper com as dicotomias homem/mulher, natureza/cultura, corpo/máquina.

O ciberfeminismo é, então, o gesto de insurgência que transforma a tecnologia em território de disputa. Ele faz do glitch uma linguagem, do bug uma forma de resistência, do ruído uma estética.

FEMINISMO NEGRO E A INSURGÊNCIA DIGITAL

                  A crítica feminista não pode se dar sem interseccionalidade. Bell Hooks, Sueli Carneiro, Nilma Lino Gomes e Lélia Gonzalez nos ensinam que gênero, raça e classe são dimensões entrelaçadas que estruturam a exclusão. No campo digital, essas estruturas se reproduzem em algoritmos que invisibilizam, classificam e excluem.

                  A ausência de corpos negros nos dados que alimentam as IAs não é um detalhe técnico — é reflexo da colonialidade do saber e do ser. Como afirma Sueli Carneiro, o racismo não é um desvio, mas uma engrenagem. E no mundo digital, ele se manifesta nas interfaces que não reconhecem rostos negros, nos filtros que clareiam peles, nos sistemas de vigilância que criminalizam a cor.

Nilma Lino Gomes reforça a importância da educação crítica como ferramenta de emancipação. Aplicado ao ciberespaço, isso significa promover letramento digital antirracista — uma pedagogia que forma sujeitos capazes de entender e combater o racismo algorítmico.

Lélia Gonzalez, ao nomear o racismo como “preconceito de marca e origem”, antecipava o debate sobre como o racismo atua nas representações. No campo do ciberfeminismo, sua voz ecoa como um alerta: não há revolução digital possível sem a presença radical das mulheres negras.

 ECOFEMINISMO, DADOS E TERRITÓRIO: A CRÍTICA DE VANDANA SHIVA

                  O ciberfeminismo se fortalece ao dialogar com o ecofeminismo, especialmente a partir das ideias da indiana Vandana Shiva. Para ela, a mesma lógica que explora e destrói a natureza é a que oprime corpos femininos — ambas tratadas como recursos, e não como sujeitos.

                  Shiva denuncia o projeto tecnocrático da modernidade, que dissociou o conhecimento da vida, e transformou a Terra e os corpos em zonas de extração. A era digital continua esse projeto: se antes extraíamos minérios, agora extraímos dados. Likes, padrões de consumo, localização, afetos — tudo é mercadoria.

                  O ciberfeminismo ecofeminista propõe, então, uma crítica que liga o extrativismo de dados ao extrativismo ambiental, e aponta para uma ética da reciprocidade, da pluralidade e do cuidado.

 BYUNG-CHUL HAN E A DOR DIGITAL SILENCIADA

                  Vivemos, como afirma Byung-Chul Han, em uma “sociedade paliativa” — uma cultura que se recusa a lidar com o sofrimento. A dor é vista como falha, a negatividade como ameaça, o conflito como distúrbio. As redes sociais, com seus filtros e métricas, alimentam essa lógica: tudo precisa ser leve, bonito, engajável.

                  No entanto, o ciberfeminismo é a recusa dessa anestesia. Ele transforma a dor em linguagem, o trauma em política, a cicatriz em narrativa coletiva. Ao invés de filtrar a realidade, o ciberfeminismo expõe, denuncia, convoca.

As campanhas #MeuPrimeiroAssédio, #MeuAmigoSecreto, #AgoraÉQueSãoElas, e a Primavera Feminista de 2015 são exemplos dessa insurgência. Elas mostraram que o espaço digital pode ser usado para construir solidariedade, gerar reconhecimento, promover justiça.

O QUE O CIBERFEMINISMO NOS ENSINA SOBRE O FUTURO

Desenho de uma mulher

O conteúdo gerado por IA pode estar incorreto.

(Mulher Biônica, 1976)

O futuro já não é uma utopia distante — é um vídeo gerado por IA. É uma voz sintética que parece humana. É um feed desenhado por algoritmos. E por isso, mais do que nunca, precisamos imaginar futuros que não sejam programados pela lógica do patriarcado, do racismo, do colonialismo e do capital.

                  O ciberfeminismo, ao incorporar as vozes de Haraway, hooks, Gonzalez, Shiva, Carneiro, Han e tantas outras, nos ensina que a tecnologia pode ser reprogramada — mas só se formos muitas, plurais e insurgentes.

“Somos todas ciborgues.”
Mas quais memórias, linguagens e afetos essas ciborgues carregarão?
Isso, ainda podemos escolher.

 

 Referências recomendadas

HARAWAY, Donna. Manifesto Ciborgue.

VNS MATRIX. 100 Anti-Teses do Ciberfeminismo. Documenta X, 1997.

DUTRA, Zeila. A Primavera das Mulheres: Ciberfeminismo e os movimentos feministas.

SHIVA, Vandana. Monoculturas da Mente. Gaia, 2003.

HOOKS, Bell. O Feminismo é para Todo Mundo. Rosa dos Tempos, 2000.

CARNEIRO, Sueli. Racismo, Sexismo e Desigualdade no Brasil. Selo Negro, 2011.

GOMES, Nilma Lino. Educação e Luta Antirracista. Autêntica, 2017.

GONZALEZ, Lélia. Por um feminismo afro-latino-americano. Zahar, 2020.

HAN, Byung-Chul. Sociedade Paliativa. Vozes, 2021.

HONNETH, Axel. Luta por Reconhecimento. Ed. 34, 2003.

 

Filmes e séries: Barbarella (1968), Mulher Biônica (1976), Her (2013), Ex Machina (2014), Westworld (HBO), Ghost in the Shell (1995/2017), Matrix (1999).

 



[1] Graduada em Licenciatura Plena em Pedagogia pela Universidade do Estado do Amapá (UEAP, 2024). Cursa pós-graduação Lato Sensu em Educação para as Relações Étnico-Raciais (UEAP), Informática. Aplicada à Educação (Instituto Federal do Amapá – IFAP) e Direitos Humanos (Instituto Nove de Inovação e Ensino Superior – Instituto 19).

Comentários