Quando Amar É Resistir: Afetos Insurgentes e a Desprogramação do Patriarcado
Juliana de Lima
Melo
O amor, enquanto prática ética, exige liberdade. Mas a
liberdade afetiva não pode ser confundida com descuido, egoísmo ou fuga da
responsabilidade.”
— Bell Hooks
Esse
texto demorou para sair. Não por falta de teoria — eu li Bell Hooks, Lélia
Gonzalez, Sueli Carneiro. Mas antes de tudo, eu precisei viver. Observar. Me
escutar. Me cansar.
Desde
outubro de 2024, venho habitando um lugar de cansaço feminino — não só
afetivo, mas político. Um esgotamento de amar, explicar, suportar. Enquanto
escrevia, escutei Djavan, Caetano. Não como trilha romântica, mas como pausa
entre a lucidez e o desejo de desistir.
Esse texto nasce daí: do
corpo exausto, da mente crítica e do desejo de amar de outro jeito — sem nos
apagar para caber.
Em
um cenário marcado por transformações nas formas de se relacionar, pelo
crescimento de discursos que celebram a liberdade emocional e pela
popularização de experiências não-monogâmicas, emerge também uma nova camada de
conflito afetivo que atinge, sobretudo, mulheres.
Este
texto propõe uma reflexão crítica — amparada por referências feministas,
psicanalíticas, decoloniais e antropológicas — sobre os impasses contemporâneos
do amor, com ênfase na figura do chamado “homem desconstruído”, nas armadilhas
da não-monogamia liberal e no esgotamento emocional das mulheres diante da
manutenção de estruturas afetivas patriarcais, agora travestidas de
progressismo.
I. Amor como prática de
liberdade: uma ética feminista do vínculo
O
amor, conforme formulado por Bell Hooks em Tudo Sobre o Amor (2000),
deve ser compreendido como prática ética, e não apenas como experiência
emocional. Amar, segundo a autora, exige esforço, escuta, responsabilidade e,
sobretudo, liberdade mútua. Entretanto, na realidade afetiva da maioria das
mulheres, o amor ainda é atravessado por assimetrias estruturais, muitas vezes
mascaradas por discursos contemporâneos que romantizam o cuidado, a empatia ou
mesmo a liberdade relacional.
Amar uma mulher, dentro
dessa perspectiva, requer mais do que aceitação passiva de sua autonomia — exige
o comprometimento ativo com sua liberdade, inclusive quando essa liberdade
desorganiza os papéis de gênero internalizados por seus parceiros. Amar,
portanto, não pode significar controle, moldagem ou expectativa de que ela
"caiba" em uma narrativa masculina.
II. O mito do homem
desconstruído: entre performance e manutenção do privilégio
Nas
últimas décadas, com o avanço das pautas feministas em espaços institucionais e
culturais, emergiu a figura do homem "desconstruído" — sujeito que,
ao incorporar superficialmente a linguagem do feminismo, mantém intactas as
bases do privilégio de gênero.
Esse
homem cita autoras, compartilha frases, frequenta rodas de conversa e assume
uma postura teoricamente alinhada à igualdade. No entanto, na intimidade de
suas relações afetivas, reproduz os mesmos padrões de egoísmo emocional,
centralidade narcísica e incapacidade de escuta. Como bem sintetiza Lélia
Gonzalez (2020), o racismo e o machismo são estruturalmente internalizados e
não se desfazem por gestos performativos.
Esse
“homem aliado” muitas vezes espera reconhecimento por compreender o óbvio,
exige gratidão por não ser abertamente violento, e se incomoda quando suas
práticas são questionadas. Há, portanto, uma manutenção sutil do poder,
ancorada na retórica do progresso individual, mas desvinculada da transformação
coletiva.
III. O cansaço político
das mulheres: entre a pedagogia afetiva e a recusa
As
mulheres têm sido, historicamente, as pedagogas do afeto. Educam homens
emocionalmente indisponíveis, sustentam relacionamentos frágeis, explicam o que
já foi dito mil vezes em textos, em grupos, em experiências. Essa pedagogia
forçada cobra caro: gera exaustão, frustração e adoecimento psíquico.
A
psicanálise contemporânea, ao abordar as dinâmicas relacionais sob a ótica do
desejo, evidencia o quanto as mulheres, ao ocuparem posições de cuidadoras e
mediadoras emocionais, são submetidas ao imperativo de acolher sem
reciprocidade. Como afirma Jessica Benjamin (1988), as relações pautadas na
assimetria desejante tendem à repetição da subordinação.
É
nesse contexto que muitas mulheres expressam um cansaço político: não se trata
mais apenas de “não querer educar”, mas de reivindicar o direito ao silêncio, à
negação, à retirada, à autonomia emocional. A recusa se torna ato ético.
IV. A não-monogamia
liberal e o narcisismo afetivo
A
crescente popularização da não-monogamia em contextos urbanos contemporâneos
trouxe à tona novas configurações relacionais. No entanto, quando praticada sem
responsabilidade ética e sem reflexão crítica, a não-monogamia pode se
transformar em uma nova forma de perpetuar a lógica patriarcal — agora
legitimada por discursos de liberdade e desconstrução.
Em
muitos casos, o que se observa é uma assimetria na aplicação dos princípios da
não-monogamia: homens se dizem livres para amar e desejar múltiplas pessoas,
mas se sentem ameaçados quando suas parceiras fazem o mesmo. Como aponta Byung-Chul
Han em Sociedade do Cansaço (2015), vivemos sob o império do narcisismo
relacional, onde o outro é apenas extensão do eu.
Essa
forma de “amor livre” frequentemente ignora as estruturas emocionais
inconscientes — como o ciúme, o medo da perda e o desejo de exclusividade —
tratando-as como fraquezas individuais, e não como elementos psíquicos que
devem ser elaborados. A psicanálise mostra que a negação desses afetos não é
superação, mas recalque.
V. Comunidades
tradicionais e a ética relacional decolonial
Muito
se fala sobre como povos indígenas, africanos ou orientais praticavam formas de
não-monogamia ou vínculos não possessivos. No entanto, essa apropriação desconsidera
as diferenças radicais entre suas cosmologias e a lógica ocidental moderna.
Em contextos
tradicionais, os vínculos afetivos são construídos com base em outros
princípios:
- coletividade,
- espiritualidade,
- reciprocidade,
- tempo expandido,
- e responsabilidade comunitária.
Tentar
transpor essas experiências para contextos urbanos, individualistas, baseados
em consumo e escassez emocional — sem transformações estruturais — é uma
operação colonial e superficial.
Como
destaca Vandana Shiva, no ecofeminismo, a lógica da exploração da Terra e dos
corpos se baseia no extrativismo. A mesma lógica se aplica às relações afetivas
modernas: o outro vira recurso, não relação.
VI. Entre Anaïs Nin e o
amor descolonizado: afetos como insurgência
Anaïs
Nin, escritora e diarista do século XX, ao narrar seus desejos, contradições e
amores, rompeu com os ideais do amor romântico burguês. Sua escrita, ainda
hoje, é referência para pensar o amor como espaço de invenção subjetiva e
resistência às normas de gênero.
Para
Nin, amar era conflito, mas também criação. Era entrega, mas nunca submissão.
Ao escrever que “o amor nunca deve custar a liberdade”, ela anunciava um
princípio essencial para as mulheres que se recusam a amar com medo, culpa ou
autonegação.
Descolonizar
o amor, como propõem autoras como Audre Lorde, Gloria Anzaldúa, Sueli Carneiro
e Rita Laura Segato, exige repensar não apenas com quem nos relacionamos — mas como
nos relacionamos, com quais pactos, com quais linguagens e com quais silêncios.
Conclusão: ou é amor com
ética relacional — ou é nova forma de opressão
O
amor no contemporâneo enfrenta uma encruzilhada: ou se torna espaço de
reconstrução afetiva baseada na escuta, na alteridade e na liberdade mútua, ou
continuará sendo uma engrenagem disfarçada de cuidado, mas movida pelo desejo
de posse e reconhecimento unilateral.
O
mito do homem desconstruído, a falácia da não-monogamia sem ética, e a
sobrecarga das mulheres nas relações são sintomas de uma sociedade que ainda
não aprendeu a amar de maneira emancipadora.
Amar
é risco. Amar é dor. Mas também é política. E, para muitas de nós, o amor só
vale se não nos custar a inteireza. Se não for para somar, que nos deixem em
paz.


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