A linguagem e a experiência vivida do negro: uma leitura do primeiro capítulo de Pele Negra, Máscaras Brancas, de Frantz Fanon, à luz do banzo colonial

 

 (Mateus Aleluia)

"Olorum, sai do seu reino e vem nos ver / Seu povo está cansado..." — Mateus Aleluia

O verso entoado por Mateus Aleluia, impregnado de clamor e ancestralidade, ressoa como um pedido de socorro dirigido ao sagrado. Olorum, entidade maior da cosmologia iorubá, é chamado a intervir, a romper o silêncio que acompanha o sofrimento histórico da população negra. Trata-se de um cansaço que não é apenas corporal, mas também simbólico, histórico e espiritual. O banzo colonial, atravessamento coletivo de dor, saudade e resistência, encontra eco na obra de Frantz Fanon, particularmente no capítulo "O negro e a linguagem" de Pele Negra, Máscaras Brancas (1952).

Neste capítulo, Fanon oferece uma das passagens mais intensas e existencialmente angustiantes da obra. O autor descreve, em tom confessional, a violência psicológica a que o sujeito negro é submetido ao ser nomeado, apontado, racializado por um olhar branco. "Olha! Um negro!", exclama a criança branca, numa cena aparentemente ingênea, mas que desvela o processo histórico de desumanização e objetificação do corpo negro. Fanon afirma, de forma cortante: "Eu era objeto entre outros objetos" (Fanon, 1952, p. 82).

Tal momento não é apenas um trauma individual, mas uma revelacão coletiva: o negro não tem direito à neutralidade. A cor de sua pele precede sua existência e antecede qualquer possibilidade de enunciação subjetiva. A linguagem, nesse contexto, deixa de ser ferramenta de comunicação e torna-se instrumento de poder e exclusão. Fanon percebe que não basta falar a língua do colonizador com propriedade, dominar a retórica e os códigos sociais. O corpo negro continua a ser encarado como um outro radical, marcado pela negatividade, pelo estigma.

Esse descompasso entre o desejo de reconhecimento e a recusa social é o que leva Fanon a um colapso interior. Em busca da universalidade do ser, ele se depara com a impossibilidade de se libertar do signo racial. Em suas palavras: "Tentei me libertar do estigma, tentei alcançar a universalidade. Mas a sociedade branca me rejeitou" (Fanon, 1952, p. 88). Essa fratura é essencial para compreendermos a formação da subjetividade negra no mundo colonial-moderno.

A narrativa de Fanon, embora incisiva e contundente, apresenta também lacunas. Seu olhar, por vezes, desconsidera as especificidades da experiência das mulheres negras, reproduzindo certa masculinidade intelectualizada. A partir disso, autoras como Grada Kilomba (2019) surgem como vozes fundamentais para ampliar essa crítica. Em sua obra Memórias da Plantacão, Kilomba denuncia o silenciamento histórico das mulheres negras nos espaços de saber e poder, afirmando que "falar é um ato político para o sujeito negro. Falar é também resistir" (Kilomba, 2019, p. 29).

As reflexões de Kilomba estão alinhadas à ideia de que a experiência vivida não pode ser dissociada da estrutura histórica que a engendra. Nesse sentido, o trauma narrado por Fanon não é apenas psíquico, mas também epistêmico. O mundo branco nega ao negro o direito de ser sujeito do conhecimento, colocando-o sempre na posição de objeto da ciência, da observação, da linguagem.

Aimé Césaire (2000), precursor de Fanon, também oferece uma crítica visceral à colonização em seu Discurso sobre o Colonialismo. Para Césaire, o colonizador também se desumaniza ao oprimir, pois a violência é uma via de mão dupla. Sua escrita, marcada por uma poética do grito, resgata a dignidade negra a partir de uma contra-narrativa que desafia os valores da civilização europeia.

As contribuições do pensamento decolonial latino-americano, especialmente os trabalhos de Aníbal Quijano (2005), Walter Mignolo (2017) e Catherine Walsh (2009), ajudam a aprofundar essa crítica ao mostrar que a colonialidade não é um evento histórico encerrado, mas uma estrutura persistente. Fanon, ao perceber que a humanidade do negro é negada desde a linguagem até a existência, se antecipa à noção de "colonialidade do ser” proposta por Maldonado-Torres (2008), em que a desumanização é o fundamento do projeto moderno-colonial.

Fanon queria ser homem, queria ser mundo, mas a porta do ser lhe foi negada. Seu grito ainda ecoa em nossos corpos. No entanto, é também através das práticas culturais, da oralidade, da ancestralidade e da espiritualidade que se forjam resistências. O banzo, por exemplo, longe de ser mera melancolia, pode ser lido como expressão de saudade e insubmissão, de ligação com a terra-mãe e com os ancestrais. É preciso reinscrever a memória negra fora dos marcos do trauma e dentro da potência da sobrevivência.

Assim, o chamado de Aleluia: “Olorum, sai do seu reino e vem nos ver”, é também um convite à reencantação do mundo. Descolonizar é mais do que resistir à opressão; é também curar, reconstruir, sonhar. Fanon nos oferece o diagnóstico e a dor. Cabe a nós, em diálogo com as vozes do presente e do passado, construir as epistemologias da cura.

 Tendo isso em vista, recomendo fortemente os álbuns de Mateus Aleluia e o trabalho do grupo Os Tincoãs. Mateus Aleluia é um artista de profunda sensibilidade, que une espiritualidade, ancestralidade e lirismo em suas composições. Sua carreira solo é marcada por álbuns belíssimos, como Fogueira Doce e Olorum, que carregam a força da tradição afro-brasileira com um toque poético singular.

    Os Tincoãs, grupo do qual Mateus fez parte, também têm uma obra riquíssima, marcada por harmonias vocais impressionantes e uma musicalidade enraizada nas religiões afrodescendentes e na cultura popular brasileira.


Ouçam, ouçam com atenção. É música que toca fundo.


Referências:

CÉSAIRE, Aimé. Discurso sobre o colonialismo. Trad. Anabela Fadul. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Tradução de Renato da Silveira. Salvador: EDUFBA, 2008.

KILOMBA, Grada. Memórias da plantação: episódios de racismo cotidiano. Tradução de Jess Oliveira. Rio de Janeiro: Cobogó, 2019.

MIGNOLO, Walter. Histórias locais/projetos globais: colonialidade, saberes subalternos e pensamento fronteiriço. Belo Horizonte: Autênntica, 2017.

MALDONADO-TORRES, Nelson. Against War: Views from the Underside of Modernity. Durham: Duke University Press, 2008.

QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina. In: LANDER, Edgardo (org.). A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais. Buenos Aires: CLACSO, 2005. p. 107-130.

WALSH, Catherine. Interculturalidade, descolonização do Estado e do conhecimento. In: WALSH, Catherine; LEONE, Carlos Walter Porto Gonçalves; MENDONÇA, Maria Paula Diogo. Políticas da interculturalidade. Petrópolis: Vozes, 2009.

 

 

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