QUANDO A UTOPIA VIRA LUTA: CONTRA A EXCLUSÃO, PELA VIDA

 


Juliana de Lima Melo[1]

Ao inaugurar a coluna Vozes Insurgentes, algumas perguntas têm me acompanhado: O que significa falar de justiça social hoje? Como reconhecer os silêncios e invisibilidades que atravessam nosso tempo? E, principalmente: como não normalizar as desigualdades que a globalização perversa insiste em aprofundar? Foi nessa busca que voltei ao ensaio "O que é o Contemporâneo?", de Giorgio Agamben. Nele, o autor propõe uma ideia que me provoca muito: ser contemporâneo não é simplesmente viver no mesmo tempo cronológico que os acontecimentos. É, antes, ter a coragem de olhar para as sombras do nosso tempo.

Agamben diz que o contemporâneo é aquele que consegue perceber aquilo que permanece oculto pelas luzes intensas e artificiais do presente. Ou seja, enquanto o mundo tenta nos entreter com discursos de progresso, desenvolvimento e sustentabilidade de fachada, ser contemporâneo é justamente voltar os olhos para as contradições, para os silêncios e para os territórios esquecidos. E é exatamente isso que desejo com essa coluna: criar um espaço onde possamos olhar para o que muitas vezes é ignorado. Falar sobre a Amazônia sem romantização. Discutir justiça social para além de campanhas pontuais. Refletir sobre os impactos da globalização que, como dizia Milton Santos, segue criando um mundo para poucos.

Ser contemporâneo, no sentido que Agamben propõe, é também um exercício de esperança. Porque reconhecer as sombras é o primeiro passo para criar outras possibilidades de futuro.

    Então, fica aqui o convite: que possamos olhar juntos para o que não querem que vejamos. E que, a partir disso, continuemos o movimento de esperançar.


(GIORGIO AGAMBEN)

Este texto é resultado de uma pesquisa em andamento no curso de Especialização em Direitos Humanos, e nasce da urgência política e ética de afirmar que a globalização, do jeito que está posta, não é a única possibilidade. A partir do pensamento crítico de Milton Santos (2000), dialogando com Paulo Freire (2019), Ailton Krenak (2020) e outros intelectuais da resistência, este post propõe uma reflexão necessária: Que tipo de mundo estamos construindo? E que mundo queremos construir?


( MILTON SANTOS)

A Globalização Perversa: Violências que atravessam corpos e territórios

Quando Milton Santos denunciou a “globalização perversa”, ele já apontava que o modelo neoliberal de desenvolvimento, sustentado por interesses financeiros e técnicos, não era neutro: era um projeto de extermínio lento. Um sistema que naturaliza desigualdades, banaliza a morte de povos inteiros e transforma territórios em mercadorias.

Essa lógica fica escancarada diante de desastres ambientais como o rompimento da barragem de Brumadinho (2019), que matou centenas e devastou comunidades inteiras, ou ainda a tragédia de Mariana (2015), que continua deixando um rastro de contaminação de rios e territórios indígenas e quilombolas.

Esses não são "acidentes". São crimes socioambientais, produzidos pela mesma engrenagem da globalização perversa que Milton Santos tanto criticou.

Amazônia em Chamas: Quando a floresta vira fronteira de lucro e morte

A Amazônia, uma das maiores expressões territoriais de diversidade socioambiental do planeta, é hoje também um dos epicentros da violência contra defensores de direitos humanos.


(DOM PHILLPS E BRUNO PEREIRA)

Os assassinatos de Dom Phillips e Bruno Pereira, em 2022, são símbolos recentes dessa guerra não declarada contra quem defende a floresta e os povos que nela vivem. Assim como eles, dezenas de lideranças indígenas e ambientalistas têm sido silenciadas. Segundo a Comissão Pastoral da Terra (2022), o Brasil lidera, ano após ano, os rankings de países com maior número de defensores de direitos humanos assassinados, especialmente aqueles que lutam por terra e território.

Milton Santos nos ajudaria a interpretar isso como uma face cruel da globalização perversa: a violência territorializada, que transforma florestas em commodities, povos em obstáculos e a vida em estatística.

Palestina: O colonialismo que nunca acabou

Essa lógica de extermínio, de apagamento e de violência contra corpos racializados não é exclusividade da Amazônia. Ela é global. Está na Palestina, onde o povo palestino enfrenta, há décadas, um apartheid territorial, econômico e existencial.

A recente escalada de ataques em Gaza é mais um capítulo desse processo de ocupação, cerco e negação sistemática dos direitos humanos básicos: o direito à vida, à água, à terra, à cultura e à dignidade.

O que conecta Amazônia e Palestina? A resposta está na lógica do território como campo de dominação. Como lembra David Harvey (2005), a luta por justiça social é inseparável da luta por justiça espacial.

Defensores de Direitos Humanos: Quem morre por defender a vida?

A lista de nomes é longa e dolorosa:

  1.       Marielle Franco, assassinada no Rio de Janeiro por denunciar a violência policial e o genocídio da juventude negra.
  2.           Dorothy Stang, missionária morta por defender camponeses e a floresta no Pará.
  3.           Paulina Chiziane, símbolo de resistência das mulheres negras moçambicanas.
  4.     Povos indígenas como os Guajajara e os Yanomami, que enterram seus líderes ano após ano, vítimas da expansão ilegal do garimpo e do agronegócio.

Milton Santos nos ensinou que o espaço não é apenas geográfico. Ele é político. Ele é humano. E cada um desses assassinatos representa uma tentativa de eliminar também os "contraespaços", aqueles territórios de resistência onde a utopia se materializa.

Utopia como Ação Militante: Esperançar é recusar a barbárie

        Diante de tamanha violência, é legítimo perguntar: ainda faz sentido falar de utopia?

Mais do que nunca, sim.

Mas não uma utopia ingênua, descolada da realidade. Falamos aqui da utopia como prática militante, como projeto político, como força que move os que se recusam a aceitar o inaceitável.

Paulo Freire (1992) já dizia que “a esperança é um ato político”. Esperançar, no contexto atual, é lutar por agroecologia, por justiça climática, por soberania alimentar, por educação crítica e popular, por territórios livres de violência.

É gritar, junto com os povos indígenas, “Demarcação Já”.
É dizer, junto com a juventude periférica, “Vidas Negras Importam”.
É marchar, com os povos da Palestina, por "Liberdade e Retorno".
É exigir, junto com o planeta, um modelo de desenvolvimento que não seja um pacto com a morte.

A Outra Globalização: Um projeto construído a partir de baixo

A globalização como possibilidade, na visão de Santos (2000), é uma globalização construída de baixo para cima. Tecida a partir das redes de solidariedade, dos coletivos de bairro, das cooperativas, dos movimentos sociais, das experiências feministas, antirracistas, indígenas e populares.

É a globalização do Banco Palmas, da Justa Trama, do MST, dos quilombos urbanos, das assembleias populares e das escolas sem muros.

É a globalização das mães que cozinham juntas para alimentar quem tem fome.
Das juventudes que ocupam escolas e praças para dizer que a educação precisa ser libertadora. Das comunidades que plantam para viver e resistir.

NÃO É UM SONHO DISTANTE. É UMA URGÊNCIA COLETIVA.

Este texto, mais do que um exercício acadêmico, é uma afirmação militante: Outra globalização é urgente, necessária e já está em construção.

A pesquisa em Direitos Humanos que motiva estas reflexões é também parte desse movimento de denúncia e de proposição. Negar a globalização perversa, denunciar os crimes ambientais e sociais, e construir alternativas baseadas na dignidade, na justiça e no direito à vida não é tarefa apenas de intelectuais ou ativistas profissionais.

É um chamado para todas, todos e todes.

Porque a utopia, como dizia Milton Santos, “não é o irrealizável, é o ainda não realizado”.

Referências

AGAMBEN, Giorgio. O que é o contemporâneo? e outros ensaios. Tradução de Vinícius Nicastro Honesko. Chapecó: Argos, 2009.

 FREIRE, Paulo. Pedagogia da esperança: um reencontro com a pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.

____________. Pedagogia do oprimido. 65. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2019.

KRENAK, Ailton. A vida não é útil. São Paulo: Companhia das Letras, 2020.

MORE, Thomas. Utopia. São Paulo: Martin Claret, 2010.

QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina. CLACSO, 2005.

SANTOS, Boaventura de Sousa. A difícil democracia: reinventar as esquerdas. São Paulo: Boitempo, 2016.

SANTOS, Milton. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. Rio de Janeiro: Record, 2000.

______________. O espaço do cidadão. São Paulo: Nobel, 2008.

HARVEY, David. A justiça social e a cidade. São Paulo: Hucitec, 2005.

BRITO, Carmen; MENEZES, Tatiana. Bancos comunitários e moedas sociais: alternativas de finanças populares solidárias. Revista Em Debate, v. 14, n. 1, 2021.

SCHMIDT, Benno Gabriel. Justa Trama: vestindo a economia solidária. Revista OIKOS, v. 10, n. 1, 2011.

STEDILE, João Pedro. O MST e a construção de um projeto popular para o Brasil. São Paulo: Expressão Popular, 2014.

 



[1] Graduada em Licenciatura Plena em Pedagogia pela Universidade do Estado do Amapá (UEAP, 2024). Cursa pós-graduação Lato Sensu em Educação para as Relações Étnico-Raciais (UEAP), Informática. Aplicada à Educação (Instituto Federal do Amapá – IFAP) e Direitos Humanos (Instituto Nove de Inovação e Ensino Superior – Instituto 19).

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