Coluna Amapá Personalidades: Tia Zefa e a Pedagogia do Marabaixo no Bairro do Laguinho
Juliana Melo[1]
“A rosa branca
açucena ô lê lê,
Case com a moça morena ô lê lê.”
(Josefa Lina da Silva. INRC do Marabaixo. IPHAN, 2013)
Tia
Zefa, foi uma das mais importantes mestras de cultura do Amapá. Moradora
centenária do tradicional bairro do Laguinho, dedicou sua vida à preservação e
transmissão do Marabaixo prática reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial
do Brasil pelo IPHAN em 2018. Guardiã das festas do Divino Espírito Santo, das
ladainhas, dos “ladrões” e dos ritos afro-amapaenses, Tia Zefa representava um
elo essencial entre o passado ancestral e as lutas presentes do povo negro
amazônida.
Aos
103 anos, ainda lúcida e cheia de histórias, sua vida expressava o que Stuart
Hall (2003) chama de identidade cultural em fluxo: “a identidade não é algo
fixo, mas um processo em constante constituição.” No corpo e na voz de Tia Zefa
vibravam os deslocamentos da diáspora africana, as resistências silenciosas e
os enfrentamentos cotidianos de uma mulher negra que fez da fé e do canto uma
forma de ensinar e reexistir.
Tia
Zefa faleceu aos 108 anos, deixando um legado imensurável para o bairro do
Laguinho, para o Marabaixo e para a cultura brasileira. Sua ausência representa
uma perda irreparável: um elo rompido na transmissão oral de saberes, histórias
e espiritualidades. No entanto, como afirma Conceição Evaristo (2017), “nossos
passos vêm de longe” e continuam vindo pelos caminhos que Tia Zefa abriu com
seus pés descalços nos barracões de Marabaixo.
O
Bairro do Laguinho: Morada de Tia Zefa
“Aonde tu vai
rapaz
Por esses campos sozinho
Vou construir minha morada
Lá nos campos do Laguinho.”
(Raimundo Ladislau)
O
Marabaixo: Ancestralidade, resistência e reexistência Afro-amapaense
O
Marabaixo é uma prática cultural afro-amapaense marcada por cantos, danças,
ladainhas e rituais que sintetizam elementos da religiosidade popular católica
e das heranças afro-brasileiras. Embora esteja hoje profundamente enraizado no
contexto do Amapá, sua origem remonta às experiências da travessia atlântica
dos povos africanos escravizados. Conforme o relato de Josefa Pereira Lau no
Inventário Nacional de Referências Culturais do Marabaixo (IPHAN, 2013), o
Marabaixo nasce como continuidade simbólica do “coco africano”, uma dança
tradicional cujos toques convocavam resistência e fuga nas senzalas.
A
oralidade revela que elementos estéticos usados nos festejos atuais como
colares, saias e pulseiras simbolizam as correntes que aprisionavam os corpos
dos escravizados. Ao transformar dor em símbolo de força e identidade, o
Marabaixo produz um processo contínuo de ressignificação da memória coletiva. O
batismo do nome “Marabaixo”, segundo Lau, teria surgido de um gesto ritual em
homenagem a um tocador morto durante a travessia. O mar, nesse contexto, é
ressignificado como espaço de sacralidade, despedida e renascimento cultural.
A
partir de então, a prática torna-se expressão de uma fé marcada pelo
sincretismo, onde a devoção ao Divino Espírito Santo se entrelaça com as marcas
da ancestralidade africana. Tal trajetória reflete o que Stuart Hall (2003)
denomina como “identidade cultural em fluxo”: não fixa, mas em permanente
construção, constituída por deslocamentos, reinterpretações e resistências.
No
Amapá, o bairro do Laguinho, situado em Macapá, é um dos mais emblemáticos
territórios de preservação e manifestação do Marabaixo. Formado historicamente
por famílias negras, descendentes de ex-escravizados, o Laguinho abriga
tradicionais barracões de Marabaixo, como os das famílias do Pavão, da Dica
Congó e da Tia Zefa. É nesse bairro que se realiza uma das mais expressivas
festas do ciclo do Divino Espírito Santo, que inclui o corte do mastro, as
ladainhas, os bailes, a distribuição de comidas típicas e os cantos
acompanhados pelo ritmo vibrante da caixa. O Laguinho não apenas mantém viva a
prática, como também a reinventa a cada geração, sendo referência na luta pela
valorização da cultura afro-amapaense.
Assim,
o Marabaixo é mais do que uma festa popular. É um dispositivo de memória,
resistência e reexistência afro-amazônica, no qual se entrecruzam
espiritualidade, musicalidade e luta simbólica. Em cada toque de caixa, em cada
canto entoado nos barracões do Laguinho ou do Curiaú, reverbera a força de uma
história coletiva que insiste em permanecer viva.
Considerações
Finais:
O
falecimento de Tia Zefa marca não apenas a perda de uma das mais importantes
mestras do Marabaixo, mas também uma ruptura simbólica na cadeia de transmissão
de saberes tradicionais afro-amapaenses. Sua ausência nos lembra da urgência em
preservar, valorizar e recontextualizar a cultura popular e quilombola dentro
dos espaços formais de educação, de forma a garantir que sua memória não seja
esquecida, mas transformada em aprendizado e pertencimento.
Transformar a escola em espaço de memória viva é uma tarefa que exige sensibilidade pedagógica e compromisso político. A presença de Tia Zefa nos currículos, nos tambores tocados pelas crianças e nas histórias contadas em sala de aula é um modo de resistir ao epistemicídio e de afirmar o direito à educação afrorreferenciada. A pedagogia do Marabaixo, transmitida por Tia Zefa, não é apenas uma prática cultural, mas um gesto de cuidado, fé e ancestralidade. Suas ladainhas e seus passos reverberam como ensinamentos sobre o território, sobre o corpo, sobre o tempo elementos fundamentais para uma educação que se reconheça como plural e decolonial. Nesse contexto, o tambor é mais que instrumento: é voz coletiva, é chamada ancestral, é corpo que aprende.
Como
rosa branca fincada no coração do Laguinho, Tia Zefa permanece enraizada na
memória do povo que a viu cantar e ensinar. Sua trajetória segue pulsando nos
barracões, nos terreiros, nas escolas e nas rodas de saber. Honrá-la é garantir
que outras crianças negras e quilombolas possam crescer reconhecendo-se como
parte de uma história que vem de longe e que, por meio da educação, continuará
ecoando por muito tempo.
Fonte: Google
Poema Final:
Açucena do Laguinho
(Para Tia Zefa)
No tambor que ensina no compasso do chão,
nasceu açucena de alma tão plena,
Tia Zefa bordava saber com o coração,
rosa branca do Laguinho, raiz serena.
Entre rezas e rodas, a flor resistia,
perfume de história, tempo e oração.
Cada passo seu no Marabaixo dizia:
açucena é saber, é educação.
Na saia rodada, no canto que abraça,
sua pedagogia foi chão de esperança.
Mestra que o tempo não cansa nem passa,
vive no riso de cada criança.
Agora, no Curiaú, brilha a estrela pequena,
mas seu nome ecoa, do barracão à cena.
Não foi embora tornou-se açucena,
que ensina e floresce na alma amapaense.
Escrito por
Juliana Melo
Referências
BHABHA, Homi K. The location of culture.
London: Routledge, 1994.
BRASIL. Diretrizes Curriculares Nacionais para a
Educação Escolar Quilombola na Educação Básica. Brasília, DF: Ministério da
Educação, 2012.
BRASIL. Base Nacional Comum Curricular.
Brasília, DF: Ministério da Educação, 2018.
EVARISTO, Conceição. Poemas da recordação e outros
movimentos. Rio de Janeiro: Pallas, 2017.
FANON, Frantz. Os condenados da terra. Rio de
Janeiro: Civilização Brasileira, 1961.
HALL, Stuart. Da diáspora: identidades e mediações
culturais. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2003.
INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL
(IPHAN). Inventário Nacional de Referências Culturais – Marabaixo.
Brasília, DF: IPHAN, 2013.
INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL
(IPHAN). Dossiê de registro do Marabaixo como Patrimônio Cultural Imaterial
do Brasil. Brasília, DF: IPHAN, 2018. Disponível em: http://portal.iphan.gov.br/uploads/ckfinder/arquivos/DOSSIE_MARABAIXO.pdf.
Acesso em: 12 maio 2025.
LADISLAU, Raimundo. Aonde tu vai rapaz. [S.l.],
[s.d.]. Ladrão tradicional do Marabaixo. Transmitido oralmente.
LAU, Josefa Pereira. Relato oral. In: INSTITUTO DO
PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL (IPHAN). Inventário Nacional de
Referências Culturais – Marabaixo. Brasília, DF: IPHAN, 2013.
SANTOS, Boaventura de Sousa. A gramática do tempo:
para uma nova cultura política. São Paulo: Cortez, 2006.


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