Fullgás: Vida, Palavra e Fim
"Meu mundo é pequeno para o que
sinto,
meu corpo não cabe no que pressinto."
Se
a vida corre veloz e irreprimível, como na canção "Fullgás", Antônio
Cicero sempre soube: o que nos move é essa ânsia quase inexplicável, esse sopro
que, mesmo no limite do cansaço, insiste em arder um pouco mais. Sua trajetória
como poeta, filósofo e letrista parece ter sido, toda ela, um diálogo com essa
força — uma tentativa de nomear o indizível, de criar abrigo para o efêmero.
Antônio Cicero (1945–2025) foi mais do que poeta e pensador: foi um artesão da linguagem, um cartógrafo dos sentimentos que não cabem. Irmão da cantora Marina Lima, parceiro intelectual de nomes como Eucanaã Ferraz e Ferreira Gullar, Cícero transitou entre a poesia, o ensaio filosófico e a canção popular, sempre com a leveza e a gravidade de quem compreendia, intimamente, o peso do existir.
Sua
trajetória é marcada por uma constante meditação sobre a linguagem, o tempo e a
finitude. Em obras como Guardar e Finalidades sem Fim, Cicero
tratou da memória como artifício contra a perda e do pensamento como
resistência ao vazio. Seu trabalho foi premiado com o Prêmio Jabuti e
reverenciado por diversas gerações de leitores.
No
entanto, foi sua despedida que escancarou, com dolorosa lucidez, a tensão entre
a vida e o sentido: uma carta deixada por ele pouco antes de sua morte nos
confronta com a pergunta que jamais cala — como conviver com o absurdo do ser?
Em
sua carta, Antônio Cicero não fez acusações nem deixou amargura. Ao contrário,
escreveu com a sobriedade dos que compreendem o “fardo da consciência”. Como em
um dos ensaios sobre Epicuro que tanto admirava, Cicero parecia afirmar que a
morte é a interrupção da sensação — e que, portanto, não deveria ser temida.
Ainda assim, seu gesto final carrega um desconcerto que a filosofia conhece
bem: o mistério do suicídio.
O direito de parar: liberdade, absurdo e o gesto de escolher a morte
“Só existe um problema filosófico verdadeiramente sério: o suicídio.” Com essa sentença, Albert Camus inicia O Mito de Sísifo, obra fundamental para compreender a tensão entre o desejo de sentido e a consciência do absurdo. Viver, para o homem moderno, é enfrentar diariamente a ausência de um fundamento último — e persistir, apesar disso. Camus não recomenda a fuga, mas a revolta lúcida: empurrar a pedra montanha acima como Sísifo, consciente da inutilidade do gesto, mas ainda assim comprometido com ele. É por isso que propõe que imaginemos Sísifo feliz — pois a lucidez diante do absurdo não leva necessariamente à renúncia, mas pode dar origem a uma forma ética de resistência.
Contudo, nem todos escolhem empurrar a pedra eternamente. Para alguns, o cansaço é mais forte que a rebeldia. Antônio Cicero, poeta e filósofo, autor de reflexões profundas sobre a linguagem, a beleza e o tempo, talvez tenha vivido essa tensão. Sua escrita frequentemente buscava a permanência pelo verbo, mesmo diante da consciência dolorosa da impermanência. Sua morte voluntária parece refletir esse dilema: a escolha de não continuar repetindo o ciclo, de interromper, com sobriedade, uma existência que já não encontrava abrigo no mundo. Em sua carta de despedida, há ecos camusianos — uma lucidez sem ilusão, uma recusa ao heroísmo forçado de continuar vivendo apenas porque se espera isso de nós.
A escolha de morrer, nesse sentido, pode ser também uma forma de afirmar a liberdade mais radical: a de interromper a própria biografia quando o peso da existência se torna insustentável. A eutanásia, inserida nesse campo, não é apenas uma questão médica ou jurídica, mas um dilema ético e existencial. Permitir que alguém escolha, diante de um sofrimento irreversível e degradante, o momento de sua partida, é reconhecer que a dignidade não está apenas em viver, mas também em como se morre. A liberdade de morrer pode ser, para alguns, a última possibilidade de manter-se sujeito diante de uma vida que lhes escapa.
Durkheim, em O Suicídio (1897), já alertava para os fatores sociais que atravessam o gesto de partir. Para ele, o suicídio é um fato social — não um ato isolado de fraqueza individual, mas muitas vezes consequência de uma sociedade que desfaz os laços, que isola, que não escuta. A morte voluntária pode ser sintoma de uma vida que deixou de fazer sentido não por culpa do sujeito, mas porque o mundo ao seu redor se tornou surdo ao seu sofrimento. No caso de Cicero, não se trata de alguém à margem social, mas de uma solidão existencial profunda — a percepção de que, mesmo cercado de reconhecimento, algo essencial havia se esvaído.
Por isso, pensar a eutanásia ou o suicídio assistido como um direito é enfrentar o tabu mais profundo da modernidade: a ideia de que a vida deve ser preservada a qualquer custo. Mas viver por obrigação, sem desejo, pode ser também uma forma de violência. Há algo profundamente humano na possibilidade de dizer basta. Não como desistência, mas como decisão — e isso é o que faz da morte, em alguns casos, não um fracasso, mas um ato último de lucidez.
Escolher morrer não é necessariamente negar a vida, mas pode ser uma maneira de afirmar, até o fim, a própria autonomia. Em um mundo cada vez mais marcado pela medicalização da existência, pela normatização do sofrimento e pelo esvaziamento das redes de cuidado, pensar filosoficamente sobre a morte é também um exercício de resistência. É lembrar que nem sempre seguir adiante é sinônimo de coragem. Às vezes, a coragem está em parar. E talvez — só talvez — Sísifo também tenha direito de deixar a pedra cair.
A Poética da Perda: Um Tributo
Neste momento de homenagem e reflexão, trago três poemas autorais, inspirados pelo lirismo seco e cortante que Antônio Cicero soube manejar como poucos.
Mas, seguindo o tom melancólico que a morte carrega, falo sobre perdas — perdas diversas. Algumas, tão profundas, que parecem arrancar um olho.
Vórtice da Intensidade do Ar
Naquela tarde chuvosa,
você chegou como um sopro
denso atravessando a calmaria,
com olhos que guardam
tempestades
e um sorriso lateral
desajeitado,
voz doce que me
hipnotiza,
revelando verdades que eu
mal ousava pensar.
Eu, acreditava saber
desejar com leveza até te encontrar
e tudo em mim se desfez,
caindo do céu
e se perdendo em tuas
entranhas.
Você, com mistérios e
sede de essência,
me tomou pela mão e
revelou que a profundidade
não é ausência de ar
mas o vórtice que consome
e transforma,
a renúncia de qualquer
superfície.
Teus olhos decifravam o
que eu não dizia,
e meu sorriso, acostumado
a suavizar o mundo,
tremeu diante da tua
intensidade.
Entre nós, algo denso
pairava
um encantamento no
vórtice que formávamos,
onde eu e tu dissonantes
dançamos até eu cair nos teus braços.
Você queria alcançar meu
âmago,
eu queria ser alcançada
sem me diluir,
mas contigo, compreendi
que os anseios não precisam de equilíbrio:
são como ventos que se
entrelaçam sem destino,
cruzando o espaço entre o
querer e o abismo.
E no redemoinho do teu
olhar,
me perdi, sem saber onde
terminava o meu ser
e onde começava o teu.
Nosso enlevo — se é que
há palavra para isso —
foi uma dança entre o
sopro e a queda,
mergulho contínuo em
camadas que não se nomeiam,
pairando como folhas
tocadas por um vento que não cessa.
Hoje, sei que não há
sentido fixo desde que te reconheci
apenas o vórtice entre
claridade e vertigem,
entre minha ânsia de
quietude e tua fome de verdade.
Eu fluo e me afundo em ti
como água entre rios que vão,
onde a corrente nunca
passa pelo mesmo lugar,
em eterno transbordamento
do que se desfaz
para quem sabe, se tornar
algo novo.
Que sorte a minha,
ter-me perdido em ti
para enfim me recriar,
pois talvez o que nos une
não seja abrigo,
mas o próprio vórtice,
girando entre os rios do
ser e do nunca,
sempre em fuga, sempre em
criação.
Aqui, o poema mergulha na ideia do amor como uma queda no abismo, na linha tênue entre o ser e o outro — uma dança de dissoluções.
Nem
Porto, Nem Ponte
Engoli a sede do que
nunca viria,
e me calei diante daquilo
que já estava escrito:
tudo é partida,
tudo é ausência,
e nada do que tentamos segurar permanece.
Aprendi a conviver com a
dança dos ventos —
quem vai, quem fica,
não é escolha minha.
Estou aqui,
você aí,
e entre nós,
nem porto, nem ponte.
Fingo que não sinto,
como quem fecha as
janelas antes da tempestade.
Mas dentro, ainda chove.
E me pergunto,
num sussurro sem eco:
algum dia fui abrigo em
algum coração?
Quis dançar até a
madrugada apagar as estrelas,
mas mal pude acender uma
vela.
Fui aviso, nunca casa.
Fui passagem, nunca
destino.
Então, pra quê doer?
Se desde o começo tudo
era brisa prometida?
Vocês, que fogem do que
pesa,
preferem jardins fáceis,
enquanto eu ainda
insistia em florescer no deserto.
Conversei comigo mesma,
com os fantasmas que
guardo no peito:
não serei mais rio para
quem não sabe nadar.
Aceito — talvez exista
amor puro, mas não é aqui.
Aceito — talvez não seja
pra mim.
Cansei de mover oceanos
por quem só sabia soprar brisas.
Não é justo —
mas quem disse que seria?
Uma amiga me disse:
"Que a vida não te
endureça."
E hoje, ainda macia por
dentro,
entendo:
há dores que não se
vencem, apenas se aceitam.
Não me revolto mais —
apenas sigo,
sem construir pontes para
quem não quer atravessar,
nem ser porto para barcos
que nunca ancoram.
Caminho.
Com o que sou,
com o que perdi,
com o que ainda floresce
em silêncio.
A aceitação da solidão, a recusa em construir pontes para os que não querem atravessar, ecoam a resignação que habita tanto a filosofia existencialista quanto a poesia de Antônio Cicero.
Sinais
Tento meditar —
pedindo sinais ao universo,
ao tempo,
a qualquer silêncio que se assemelhe a resposta.
Tento recordar os dias
em que a infância era minha casa:
tudo era doce,
era sempre a primeira vez —
mas será que esta é mesmo a minha primeira travessia?
Ainda não alcancei a meditação que revela vidas,
mas sei que dentro de mim
ainda há uma menina correndo no parque,
rindo no escorregador,
feliz com balas coloridas
e bonecas de olhos fixos.
Essa menina,
ela ainda vive aqui,
no âmago,
mesmo desde o dia em que a inocência
caiu junto comigo no chão —
quando pensei ter quebrado o joelho
e ninguém viu minha dor.
As crises,
os choros escondidos,
os pedidos mudos de ajuda
que soavam como incômodo.
Talvez por isso ainda me veja como um problema.
Talvez o tempo tenha curado a pele,
mas o coração ainda guarda hematomas.
E naquele ano,
fui cruel contigo.
Eu sei.
Mas você não sabia da tempestade
que me naufragava por dentro:
o medo,
as perdas,
a sensação constante de estar à deriva.
Você dizia:
"Você é como uma criança".
E era verdade.
Só que você cortava meu riso pela metade,
interrompia minha empolgação,
dizia que minhas gírias eram impróprias,
que meus passos não pareciam verdadeiros.
E eu, querendo liberdade,
comecei a mentir.
Porque a verdade doía mais que a mentira.
No fim, me calei.
Estagnei.
Mas a infância — ah, ela —
nunca me deixou completamente.
Ser criança é ter fé no meio do caos.
É encontrar esperança no som do vento,
na doçura de um detalhe esquecido.
Eu não quero te usar de escada,
não preciso disso.
Só quero entender meus próprios desígnios.
Todos os dias,
rezo com dúvidas.
Será que sei orar?
Mas algo me guarda.
Algo me segura quando penso em cair demais.
Às vezes sou triste.
Penso coisas que não devia.
Mas engulo o mundo e tento.
Porque viver, no fundo,
é isso:
tentar.
O poema “Sinais” dialoga com a obra de Antônio Cicero ao refletir sobre o tempo, a infância e a busca por sentido existencial. Ambos exploram a memória como espaço filosófico e afetivo. A espiritualidade questionadora e o tom introspectivo também aproximam suas vozes poéticas.
O
Que Fica
Antônio
Cicero nos ensinou a pensar a vida em sua fragilidade luminosa. Sua morte,
longe de apagar seu brilho, nos força a reler suas palavras como quem recolhe
cacos de um espelho quebrado — cada fragmento refletindo uma pergunta vital.
Em
tempos de pressa e ruído, que saibamos honrar sua memória com o gesto mais
radical que ele propôs: pensar com delicadeza, viver com intensidade e, talvez,
aceitar, como Sísifo, a beleza amarga do esforço sem fim.
“O
pensamento resiste ao tempo. E é isso que nos salva.”
— Antônio Cicero


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