Elegia para um erro de tradução: memórias, desencontros e a poética do efêmero
Reflexões Sobre o Que Se Perde e o Que Fica
A elegia, como tipo
poético, é uma forma de expressão que carrega consigo o peso da saudade e da
perda. É um lamento que se infiltra no coração, muitas vezes sem explicação, e
emerge quando olhamos para o passado, sentindo o vazio de tudo aquilo que já não
está mais conosco. Ao contrário do que muitos pensam, ela não é exclusivamente
sobre a morte. A elegia fala da perda em suas várias formas: uma amizade que se
foi, um sonho que nunca se realizou, uma palavra que ficou engasgada.
Para mim, as memórias
se tornam um reflexo dessa natureza fugaz e silenciosa da elegia. Como se tudo
fosse areia escorrendo pelos dedos, as lembranças se desvanecem, ficando quase
intangíveis. A elegia, nesse sentido, é uma tentativa de capturar essas fugas
do tempo, de olhar para o que foi e aceitar que, embora nada disso volte, ele
ainda molda quem sou. Como nas tardes de infância, quando a leitura era uma
porta aberta para o mundo, e a crença de que poderia ser o que quisesse era
vívida. Hoje, essas memórias se assemelham a um espelho quebrado, e, ao
olhá-las, percebo apenas fragmentos do que poderia ter sido.
A elegia também se traduz, em minha trajetória, como a contemplação de escolhas e erros, como algo que, talvez, nunca tenha sido totalmente meu. Mas, com essa sensação de perda, há também uma tranquilidade. A nostalgia não apressa, ela ocupa o tempo e se mistura com o presente, como uma lembrança que, mesmo dolorosa, ainda preserva uma beleza nas suas marcas. A elegia, então, não é apenas um lamento; é também uma forma de celebrar o que se foi e o que permanece nas entrelinhas do que vivemos.
Tendo devidamente esclarecido o que constitui a essência da elegia, adentremos, pois, ao cerne da questão, meus caros, onde reside o verdadeiro interesse ...
Elegia para um erro de tradução
Choro-te em silêncio, entre nuvens dispersas,
pois foste luz e sombra em meu paraíso exilado. O céu se desenha em formas que
nos lembram, mas o vento as apaga sem piedade, sem memória. Sei que não estarás
no além-vida, nem em promessas, somos apenas um erro de tradução na eternidade.
Nos campos onde deito, fecho os olhos e
procuro-te, no perfume que ainda dança em minha pele, nas lembranças que
sangram como espinhos, no tempo que não mais se repete. Ah, quanta dor em
recordar a eternidade breve do instante que não se deixou viver.
O vento leva teu nome como as flores cor de rosa
do jambeiro, desfeitas em promessas que nunca se cumpriram. O Éden em que um
dia te vi dissolveu-se, e eu, andarilho entre ruínas de emoção, percorro becos
sem saída de saudade e exílio, um peregrino perdido nas cinzas do que fomos.
Dizem-me que sentir demais é um erro, que o peso
do amor deve ser esquecido. Mas como negar o ardor que queima minha carne? Sou
chaga aberta, ferida que recusa cicatriz. E ainda assim, sou pó entre os
passos, um reflexo perdido em vidraças esquecidas.
Pelas ruas de Nova Esperança vaguei, ouvindo
vozes de vidas alheias, mulheres partidas, um velho sem munição, e percebi:
cada um que cruza meu caminho carrega um pedaço de mim, uma dor espelhada. Sou
átomo disperso, poeira que se mistura ao tempo, sem começo, sem fim, sem
tradução possível.
Quis ser como Thoreau sob Walden, mas sou peixe
fora d'água, errante e desfeito. Olho o céu e já não vejo formas, sou apenas
neblina dissolvendo-se no nada. E ao fechar os olhos uma última vez, ainda ouço
teu nome flutuando no vento, um sussurro que nunca aprenderemos a decifrar.
Por: Juliana Melo
Macapá - AP 26.03.2025
1. Referência às flores cor de rosa do jambeiro
As flores rosa do jambeiro, tão presentes nas ruas de Macapá e por toda a Amazônia, possuem uma beleza que resiste até mesmo ao chão onde caem. Sua cor e aroma inconfundíveis transformam paisagens urbanas, trazendo uma sensação de conforto e familiaridade para quem, como eu, cresceu sob sua sombra. Mais que encanto, essas flores têm propriedades nutritivas e medicinais. Sendo uma Planta Alimentícia Não Convencional (PANC), o jambo (Syzygium malaccense) contém vitaminas A, B1 e B2, além de ferro, fósforo e cálcio, e possui ação hepatoprotetora. Apesar de sua origem na Oceania, essa árvore se tornou parte da identidade amazônica, compartilhando a família Myrtaceae com frutos como jabuticaba e pitanga. Sua floração, influenciada pelo clima e estado nutricional, marca o tempo em nossas paisagens, lembrando-nos de que mesmo aquilo que se desprende do galho mantém sua beleza.
Referência ao bairro Nova Esperança
Nova
Esperança foi um dos bairros onde passei parte da minha infância, caminhando
por suas ruas e absorvendo suas histórias. Criado na década de 1970 para
receber os moradores da antiga Baixada do Elesbão. De acordo com o Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2010 sua população era de
14.577 habitantes, distribuídos em uma área de apenas 0,5 km². Suas ruas
carregam o cotidiano de milhares de pessoas, e foi nelas que vivi parte da
minha trajetória, observando o ir e vir da cidade, ouvindo histórias e sentindo
a pulsação de um espaço que moldou minha visão de mundo.
1 Referência
a Walden, de Henry David Thoreau
Ao citar Walden, faço referência à obra do escritor e filósofo Henry David Thoreau, publicada em 1854, na qual ele relata sua experiência de dois anos vivendo em uma cabana à beira do lago Walden, em Massachusetts. Mais do que um relato sobre isolamento na natureza, Walden é uma reflexão profunda sobre autossuficiência, simplicidade e o verdadeiro significado da existência. Thoreau buscava um afastamento do ritmo frenético da sociedade para se reconectar com a essência da vida, uma ideia que ressoa em minha própria inquietação.
No mais, agradeço imensamente se, por algum milagre, consegui prender sua atenção até aqui. Sério, fico genuinamente feliz, pois, confesso, na maior parte do tempo, penso que minhas ideias são adornadas com um exagero de discursos pedantes. Mas, para redimir-me, permitam-me oferecer uma recomendação cinematográfica.
Recomendação
Se
você aprecia reflexões sobre a efemeridade dos encontros e a dificuldade de
comunicação entre almas que se tocam, mas nunca se traduzem completamente,
recomendo assistir a Lost in Translation (2003), de Sofia Coppola. O
filme captura com delicadeza a melancolia dos momentos que poderiam ser
eternos, mas se perdem no tempo, assim como as flores rosa do jambeiro caídas
ao chão.
A
narrativa de Coppola, ambientada na neonizada Tóquio, ressoa com a sensação de
deslocamento e desencontro presentes na minha elegia. Assim como no texto, os
personagens vivem um tempo suspenso, onde tentam se encontrar nas entrelinhas,
mas esbarram na impossibilidade de plena compreensão. É um filme sobre aquilo
que escapa, sobre o que sentimos, mas não conseguimos traduzir — exatamente
como as memórias que insistem em viver em nós, mesmo quando já não pertencem ao
presente.
Pois é, meus caros, chegamos ao fim dessa jornada gloriosa de palavras.
Até logo ...





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